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Diógenes e o Cinismo (Aldo Dinucci - Dr. em Filosofia clássica pela PUC-RJ)

Se você consultar o dicionário, verá como significado de “cínico” algo como “descarado, fingido”. Assim, “cínico”, nos nossos dias, é alguém dissimulado ou insolente. Os cínicos na antiguidade com certeza não eram dissimulados, pois se caracterizavam por dizer o que lhes passava pela cabeça sem papas na língua. A irreverência, porém, lhes era característica. Assim, os cínicos deram um passo além de Sócrates, pois esse se contentava com a ironia, com a qual abordava seus interlocutores para fazê-los falar mais fácil e confiantemente, e assim poder refutá-los. É-se irônico quando o sentido real do que se diz é o contrário do literal, e Sócrates era irônico quando, ao tratar com alguém que se considerava sábio, dizia querer ouvir suas “sábias palavras” sobre um determinado tema para então, através do diálogo, mostrar ao que se supunha sábio que ele não sabia o que julgava saber. Já um cínico vai direto ao ponto em suas críticas das opiniões e modos de ser dos demais: eles são realmente desaforados e atrevidos em suas críticas. E podemos dizer que essa irreverência é para eles um princípio educacional, um modo de fazer com que aquele que os escute grave de fato a crítica e reflita sobre ela, o que raramente acontece quando nos limitamos a conversar de modo “civilizado”. De fato, os cínicos perceberam rapidamente que nem sempre se consegue progresso com o diálogo, especialmente quando tratamos com pessoas muito teimosas, pessoas que acham que sabem o que não sabem (arrogantes) e pessoas infantis (imbecis). Assim, para os cínicos, o melhor modo de se chegar ao coração da maioria das pessoas é através de uma boa tirada, especialmente em público. E nós todos achamos engraçadas essas tiradas, pois, em diversos sentidos, somos também imbecis, infantis, arrogantes e teimosos, assim como a quase totalidade da humanidade. Um exemplo disso: certa vez Diógenes foi à casa de um homem rico que insistentemente lhe mostrava seus ricos objetos e dizia a Diógenes que esse não cuspisse em sua casa por serem caríssimos os objetos que lá estavam. Em determinado momento, Diógenes junta uma boa quantidade de saliva em sua boca e dá uma bela escarrada na cara do grego rico e este, estupefato, perguntando a Diógenes porque esse lhe fizera tal ultraje, obteve como resposta que sua cara foi o lugar mais sujo que Diógenes encontrou naquela casa. Trocando em miúdos: Diógenes poderia ter feito um belo diálogo com o grego rico para mostrar-lhe o quanto era tola a ostentação e que é um néscio aquele que, ao exibir seus objetos, pensa estar exibindo a si mesmo, pois crê serem suas as qualidades que, na verdade, são das coisas, enquanto, ao mesmo tempo, se desvaloriza, pois, com sua atitude, mostra valorizar mais as coisas que a si mesmo. Diógenes poderia ter dito coisas tais, mas fez melhor: com sua cusparada e sua resposta disse tudo isso e muito mais com menos palavras e mais efeito, pois, após ouvir um belo discurso contra a ostentação, você pode eventualmente esquecer (e em geral esquece) as razões pelas quais não se deve ostentar, mas como esquecer o essencial, quer dizer, o que há de ridículo e irracional na ostentação depois de se ouvir sobre a cusparada de Diógenes?
A escola filosófica cínica teve como precursor Antístenes, um amigo de Sócrates, e por isso podemos dizer que o cinismo é uma filosofia socrática (assim como o estoicismo e o epicurismo, escolas também fundadas por amigos, amigos dos amigos ou admiradores de Sócrates e seus amigos, escolas que têm em comum e apóiam várias idéias concebidas por Sócrates). Muitos e muitos outros filósofos cínicos houve, por quase mil anos, até o movimento ser proibido por forças conservadoras que não apoiavam a liberdade de expressão e, conseqüentemente, o próprio cinismo.
O termo “cínico” vem da palavra grega kuón, que significa “cão”, provavelmente por causa da identificação de Diógenes com os cães.
Diógenes, o primeiro dos filósofos cínicos, nasceu há cerca de dois mil e quatrocentos anos atrás na Grécia, numa cidade chamada Sínope. Segundo as notícias que nos chegam da antiguidade, era filho de um banqueiro de nome Hicésias e se viu, conjuntamente com seu pai, envolvido num escândalo financeiro. Seu pai era o administrador do banco público de Sínope, e havia sido encarregado da tarefa de retirar moeda falsa de circulação. Ao invés disso, Hicésias retirou a moeda verdadeira como sendo falsa, sendo descoberto e desaparecendo de cena. Após isso, Diógenes foi banido de Sínope e para aí jamais voltou, tornando-se, desde então, um filósofo andarilho. Segundo Diógenes Laércio, filósofo alexandrino que escreveu a biografia dos filósofos célebres da antiguidade, Diógenes teria, chegando a Atenas, conhecido Antístenes. E Diógenes teria conquistado a amizade de Antístenes (que não queria discípulo nenhum) pela insistência, ainda que Antístenes o repelisse a golpes de bastão: “E quando Antístenes estendeu-lhe o bastão – diz-nos Diógenes Laércio-(...) Diógenes falou: “Bate, pois não encontrarás madeira dura o bastante com a qual me afastes, na medida em que eu pensar estares dizendo algo que eu queira ouvir”. Hoje, porém se sabe que Diógenes não conheceu de fato Antístenes (Diógenes chegou a Atenas depois da morte deste), mas é certo que Antístenes antecipou, como discípulo extremado de Sócrates, várias idéias que seriam desenvolvidas por Diógenes e pelos demais cínicos, sendo por isso considerado o precursor do cinismo.
O cinismo teve Diógenes de Sínope como fundador, e isso se deu seja pela influência dos textos de Xenofonte ou Antístenes sobre o pensamento de Sócrates, seja por uma inspiração própria original que encontrou eco e sustentação nas idéias socráticas.


09/02/2008 Publicada por vivavoxsergipe


Essa pintura é na Grécia, mas parece Europa, em dias de verão na renascensa. E os modelitos, principalmente, as sombrinhas japonesas e as cestinhas de flores, parecem ter sido comprados na feirinha da liberdade. Gostei muito. Arquivei.

21/08/2009 15:46 silvia calçada silviacalcada@yahoo.com.br

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